Hiker walking along a flower-lined mountain trail overlooking a forested valley
FEMININO E ALMA,  RELACIONAMENTO AMOROSO

Que o amor encontre você inteira

Talvez você reconheça esse instante: a mensagem ainda não chegou, mas a espera já ocupou a manhã. O café esfria entre suas mãos, os ruídos da rua continuam, e alguma coisa dentro de você permanece diante de uma porta, tentando descobrir se será recebida. Você gostaria de cuidar do próprio dia, mas se percebe procurando, no silêncio de outra pessoa, uma resposta sobre o seu valor. Deve ser cansativo viver assim, com tanto de si suspenso numa presença que você não pode controlar.

Há histórias em que desejar proximidade se mistura ao medo de desagradar. Você aprende a corrigir a própria voz antes de falar, oferece compreensão quando precisava expressar tristeza, concorda enquanto sente o peito apertar. Aos poucos, até escolher o que fazer numa tarde parece exigir uma autorização invisível. Se algo disso lhe acontece, que você possa olhar para essa experiência com delicadeza. Há uma mulher sofrendo aí, e ela merece ser escutada sem receber mais uma acusação, sobretudo a sua.

Talvez o reencontro consigo comece quando você consegue perguntar o que sente antes de perguntar o que esperam de você. A resposta pode vir pequena, quase envergonhada: gostaria de descansar, de ver uma amiga, de dizer que aquilo doeu. Pode haver medo depois dessa descoberta, e até vontade de recolher o que disse. Você pode precisar de companhia e de ajuda para sustentar esses primeiros gestos. Construir uma vida em que seus desejos tenham lugar é um trabalho paciente, feito também nos dias em que a coragem parece faltar.

Existe uma ternura profunda em aprender a permanecer ao próprio lado enquanto se ama alguém. Em poder oferecer carinho e perceber quando está exausta; em sentir saudade e ainda preparar o almoço; em atravessar uma discordância sem concluir que deixou de merecer afeto. Seu cotidiano merece espaço para outras presenças, outros interesses, para aquilo que desperta sua curiosidade e lhe devolve o gosto de estar viva.

Que você possa, pouco a pouco, retirar da espera as horas de que precisa para existir. Que um vínculo encontre uma mulher com voz, história, amizades, desejo e direito ao descanso. E, quando o medo lhe pedir que diminua para assegurar uma permanência, que haja alguém, uma pessoa de confiança, uma escuta cuidadosa, você mesma capaz de lembrar que suas necessidades também pertencem à conversa.

Referências: Este texto foi escrito pela psicanalista Flora Dominguez e, é uma elaboração poética, não um diagnóstico. Foram consultados David J. Wallin, Attachment in Psychotherapy, pela síntese sobre apego e transformação na relação terapêutica; e Kristin Neff, What Is Self-Compassion?, sobre gentileza consigo, humanidade compartilhada e atenção ao sofrimento.

Flora Dominguez

Sou aquariana de 57 anos, dessas que precisam de céu aberto para respirar e de profundidade para amar. Minha liberdade não diminui meu afeto; apenas me impede de viver em gaiolas. Com Vênus em Peixes, amo como quem mergulha: inteira, intuitiva, quase sem margens. Tenho estrelas na cabeça, mar no peito e uma alma que ainda acredita no amor delicado, verdadeiro e imenso.🦋🌪🌻🌸🐺🌹🐧👑

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