AUTISMO EM MULHERES

A mulher que passou a vida ensaiando como existir

A mulher que passou a vida ensaiando como existirDurante muitos anos, ela acreditou que todas as mulheres estudavam o rosto das outras antes de responder. Que todas preparavam mentalmente uma conversa, calculavam o tempo certo de sorrir e aprendiam, pela observação, quando deveriam olhar nos olhos. Imaginava que todas voltavam para casa exaustas depois de encontros aparentemente simples e precisavam de silêncio, penumbra e solidão para reorganizar o mundo dentro do corpo.

Chamaram-na de sensível demais quando os ruídos lhe atravessavam como lâminas. Disseram que era difícil quando uma mudança inesperada desorganizava seu dia inteiro. Elogiaram sua educação, sua competência, sua capacidade de se adaptar, sem perceber o imenso trabalho que existia por trás daquela mulher aparentemente ajustada. Ninguém via os roteiros decorados, os gestos copiados, o desconforto suportado em segredo. Ela também não sabia que estava mascarando. Pensava apenas que existir parecia mais fácil para todo mundo.

Quando o diagnóstico de autismo chega na vida adulta, ele não inventa uma nova mulher. Para algumas, oferece uma linguagem capaz de iluminar a mulher que sempre esteve ali. Experiências antes interpretadas como defeito, fraqueza ou inadequação podem ganhar outro sentido. O autismo não nasceu de uma mãe ausente, de um amor malsucedido ou de uma ferida da infância; é uma condição do neurodesenvolvimento. As feridas podem ter surgido, porém, dos anos em que sua diferença foi ridicularizada, corrigida ou obrigada a desaparecer para não incomodar.

Pode haver alívio, mas também luto. Luto pela menina que precisava descansar e foi chamada de preguiçosa. Pela adolescente que imitava as outras para sobreviver ao pertencimento. Pela mulher que acreditou ser quebrada porque aquilo que o mundo considerava simples lhe custava um oceano de energia. Receber um nome não devolve os anos, mas pode interromper a antiga violência de interpretar toda dificuldade como falha de caráter.

E talvez comece ali uma intimidade inédita consigo mesma. Ela passa a reconhecer seus limites sensoriais, a respeitar a necessidade de previsibilidade, a procurar formas menos dolorosas de se relacionar e a descobrir quais gestos eram realmente seus. Retirar a máscara não acontece de uma vez, nem é seguro em todos os ambientes. É uma travessia cuidadosa, singular, feita na medida em que encontra acolhimento.

Ela não precisa tornar-se menos autista para tornar-se mais inteira. Precisa de um mundo em que sua forma de sentir não seja constantemente julgada pela aparência de normalidade. Depois de uma vida ensaiando como existir, talvez sua liberdade comece quando compreende que não veio ao mundo para representar uma mulher aceitável. Veio para habitar, com dignidade, a mulher real que sempre foi.

Referências: Esse texto foi escrito pela psicanalista Flora Dominguez e faz uma elaboração poética nas experiências mulheres autistas. Foram consultados o estudo de Bargiela, Steward e Mandy, The Experiences of Late-diagnosed Women with Autism Spectrum Conditions, sobre diagnóstico tardio e a experiência de “fingir normalidade”; o estudo de Garcia-Simon e colaboradores, Experiences of Females With Late Diagnosis of Autism, publicado em 2025, sobre mascaramento e atraso diagnóstico; e a pesquisa de Belcher e colaboradores sobre funcionamento social e saúde mental em mulheres com características autistas. Nenhuma dessas referências permite generalizar uma experiência única para todas as mulheres.

Flora Dominguez

Sou aquariana de 57 anos, dessas que precisam de céu aberto para respirar e de profundidade para amar. Minha liberdade não diminui meu afeto; apenas me impede de viver em gaiolas. Com Vênus em Peixes, amo como quem mergulha: inteira, intuitiva, quase sem margens. Tenho estrelas na cabeça, mar no peito e uma alma que ainda acredita no amor delicado, verdadeiro e imenso.🦋🌪🌻🌸🐺🌹🐧👑

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